Ricardo Birmann: por uma nova Brasília pensada por seus moradores.

Ricardo Birmann: por uma nova Brasília pensada por seus moradores.

Por Bruno Botafogo em 28 de Abril de 2017

Ricardo Birmann – Diretor Urbanizadora Paranoazinho – UPSA

Com a proposta do Brasília Ocupada de promover o placemaking em nossa capital federal discutindo que tipo de lugares queremos criar, em que tipo de comunidade e em que mundo queremos viver, fomos conversar com o Ricardo Birmann,  este entusiasta agente de ocupação que tem uma visão global do movimento e uma consistente atuação nacional e local.

Discurso amplo, global e tão relevante como este, o desenho e a construção das cidades é muito apaixonante e uma das principais discussões da nossa época. A população urbana do mundo ultrapassou a rural e em 2050 a previsão é que tenhamos cerca de 7 bilhões de pessoas morando em cidades. Participar da discussão Que Cidade Queremos Deixar Para as Próximas Gerações é uma grande honra”.  

Ricardo Birmann é um empreendedor nascido em uma tradicional família do mercado imobiliário paulista e que, acertadamente, o estimulou primeiramente a formar-se pela USP em sua paixão pela Física. É que no fundo eles já deveriam saber que  a temática do urbanismo era mesmo latente em seu DNA, e hoje a sua vida gira em torno dela sendo Diretor Presidente da  Urbanizadora Paranoazinho – UPSA, Diretor da Fundação Aron Birmann, membro do Conselho Brasileiro em Lideranças em Placemaking e muito atuante no PPS – Project for Public Space.

 

O termo placemaking é tão recente assim, por que muitos o desconhecem?

RB: Não é novo. O termo está sendo utilizado há mais de 40 anos. A diferença hoje é que ele finalmente está sendo ouvido. Antes o placemaking era debatido em pequenos grupos, entre os
´malucos do placemaking´, e hoje o debate ocorre na ONU, o mundo está atento à questão do placemaking que é uma tendência global da recuperação do espaço público urbano. Saímos de um longo ciclo de desurbanização, onde as cidades eram vistas como um lugar ruim, sujo, perigoso e de exclusão social. Este ciclo levou à suburbanização onde se criaram extensos e enormes subúrbios. Passadas algumas décadas, a sociedade começou a perceber o impacto negativo do estilo de vida suburbano que envolvem problemas ambientais e grandes congestionamentos. A desestruturação do espaço público de Brasília é um exemplo disto onde você tem um centro estruturado, onde quase a metade dos empregos se encontram e onde apenas 10% da população vive. É uma grande migração diária de pessoas. E isto tem um custo de qualidade de vida, de produtividade, ambiental, econômico. As pessoas estão cansadas disso, querendo mais qualidade de vida, equilíbrio e leveza. Isto só se dará pela requalificação das cidades. No lugar do processo anterior de abandono, agora surge o processo de recuperação das cidades.

Em Brasília, que teve seu planejamento focado nos carros, a questão da mobilidade é de suma importância. As ciclovias e o andar a pé em Brasília são uma forma de ocupação do espaço público?

RB: O mundo inteiro hoje fala sobre ciclovias. O Movimento das bicicletas não é algo planejado por alguém, por algum governo, um escritório. Num espaço curto de 10 anos, a questão das ciclovias virou pauta de qualquer prefeitura pelo mundo. Então no movimento de se voltar para a cidade, a primeira ação é  reorganizar o espaço público, aquele de permanência, de troca, de convívio e que antes era simplesmente o espaço de trânsito. A ocupação dos espaços urbanos pelos carros é um fenômeno recente de 200 anos e hoje representa um problema gravíssimo. Caminhamos para a “pedestrelização” (uma neologia), a transformação de ruas para os pedestres. As pessoas dizem ´a rua foi fechada´. Na verdade ´a rua foi aberta para os pedestres´. Temos exemplos positivos de cidades americanas como NY e de cidades europeias como Copenhagen que está a 50 anos na nossa frente.

 

Afinal, que movimento é este e qual o desafio para se posicionar como um movimento global?

RB: O placemaking é uma tendência cultural e de valores de se enxergar o mundo, não é uma proposta política. É uma questão que a sociedade está colocando. É como a questão ambiental que vem surgindo há décadas e até hoje encontra-se em organização, com pessoas e entidades se engajando. O tema da recuperação dos espaços públicos urbanos está se consolidando e é encabeçado pela sociedade, pelo mundo acadêmico e pelos líderes. A questão da ocupação do espaço público se desdobra em diversos temas, não é uma discussão ´sobre que banco você deve ter na praça´. É maior: o que tem em volta desta praça? Que tipo de prédio tem em volta, qual a largura da calçada, qual a largura da rua, quem usa a rua e como a usa, onde o espaço do pedestre começa e termina? Então isto vai se desdobrando. Se era um tema fechado em Fred Kent (Presidente da PPS)  ou Jang Gehl (A Vida Entre Edifícios, onde ele já alertava `atenção mundo, existe vida entre os prédios´),  a discussão ganhou o mundo e a ONU já realizou em 2016 a Habitat 3, conferência realizada a cada 20 anos. Claro que os temas são amplos mas, o placemaking apresenta-se dentre eles tendo sido debatido na  Future of Places, conferência paralela que durou três anos, como preparação para a Habitat 3. Não que a ONU seja a solução, inclusive incentivou erroneamente pelo mundo a construção em grande escala de residências populares simplesmente com a métrica de diminuir o déficit habitacional porém, sem considerar a qualidade de vida. Está na pauta hoje de todo o mundo a ocupação do espaço público , nos governos, nas empresas privadas, nas academias de arquitetura & urbanismo  e, principalmente, na sociedade.

O estado como agente de ocupação, como você vê sua atuação?  

RB: Vejo com muito ceticismo governo em seu papel de liderança neste processo.  Os políticos adoram se colocar nesta liderança, adoram anunciar que vão construir x quilômetros de ciclovia. Mas, na verdade é uma questão não de liderança e sim de reação às questões que a sociedade está colocando. O governo tem de ser eficiente na disposição das condições de liberdade, proporcionando  oportunidades para que as pessoas , no exercício de sua liberdade, construam uma sociedade que vai ser mais alinhada com este conjunto de valores que hoje a pautam.  Dois exemplos são o do Mercado Sul Vive, em Taguatinga, e o dos movimentos culturais que ocupam o Setor Comercial Sul, como o Mutamba. Não é o governo quem planejou. Foram as pessoas que estão querendo reinventar a cidade.  A sociedade quer estar nas ruas, quer festas, quer ocupar. A grande contribuição que o Executivo e o Legislativo podem dar é como pensar em criar um  palco para proporcionar condições adequadas às ocupações desses espaços. Um dos aspectos mais relevantes do placemaking é a questão da Mobilidade da Cidade, o desenvolvimento dos planos de trânsito com o desenvolvimento urbano em torno das linhas estruturais de transporte público.

“A cobrança em Brasília pelas vagas públicas é uma evolução. Em várias cidades do mundo não se cobra apenas pelo carro parado, mas, também pelo carro em movimento (Pedágio Urbano). Esse é um exemplo positivo de interferência estatal na vida das pessoas, pois traz benefícios a todos”.

Brasília, experiência única como uma cidade do movimento modernista na arquitetura, tem suas limitações no desenvolvimento do placemaking por seu tombamento, pelo Iphan, e como Patrimônio Cultural da Humanidade, pela UNESCO?  

RB: A questão tem de ser vista pela perspectiva histórica de Brasília para o movimento filosófico e cultural que foi o modernismo. Nesse aspecto existe uma justificativa para o tombamento que é uma experiência única e com uma contribuição, portanto, histórica. Contudo, o tombamento não conversa com a questão do espaço público. Não querendo entrar na questão de me contrapor ao tombamento, a realidade é a de que atualmente há um movimento de transformação dos espaços públicos,  das instituições e do  arcabouço – que seja jurídico, moral ou social – está sendo colocado à prova por uma questão de transformação do mundo. E quando os valores mudam, todas as instituições passam por um momento de stress que leva a uma adequação, uma transformação, uma ruptura. Se o processo de retomada dos espaços públicos vai gerar uma tensão no assunto do tombamento de Brasília, acho que é muito cedo pra falar. Esta não é a ameaça mais forte e sim a revolução na mobilidade urbana, com a tendência de as pessoas não serem donas de seus próprios carros, e Brasília tem um desenho muito centrado na mobilidade pelo carro. Este será o maior desafio para Brasília e seu tombamento. Como é que vai ser daqui 200 anos? As cidades do mundo estão se adaptando para isso e Brasília terá uma dificuldade maior.  

 

E o placemaking em nível local, como vem se desenvolvendo?

RB: Devemos tirar a pressão sobre o Plano Piloto onde encontra-se  ⅓ dos empregos do DF e onde apenas 10% da população dorme aqui. As Regiões Administrativas precisam deixar de ter esta característica de cidade satélite, cidade dormitório e se qualificar como centros urbanos ondes as pessoas possam dormir, estudar, trabalhar, se divertir – ter a completude de suas vidas nesses locais.  Esse equilíbrio pode ser a saída para o tombamento, para que Brasília não fique sobrecarregada com a responsabilidade de ser a solução de todos os problemas da sociedade.

RB: E os exemplos de placemaking em Brasília? Por exemplo, temos o Eixão do Lazer há mais de 20 anos enquanto SP fechou sua Av. Paulista há um ano.  E o placemaking aqui é gourmetizado?

(Fui chamado a atenção porque as “vias não foram fechadas, foram abertas aos pedestres”.Tudo bem, eu vou mudar a minhas perspectiva).

RB: Vai acabar tendo uma gourmetização como ocorreu com o food truck. A kombi vendendo hot dog tem há décadas e nunca ninguém chamou de food truck. E hoje temos um hamburger sendo vendido a R$ 50,00. Não vejo a gourmetização como problema a partir do momento que promove o placemaking de forma geral, o empreendedor quer atingir uma parcela da sociedade que tem o poder mais alto de consumo. Estas experiências positivas, até financeiramente para os empreendedores, acabam incentivando outras parcelas da sociedade. A experimentação é feita no modelo onde a margem de lucro é maior, que dá mais conforto para o empreendedor, que leva para uma construção de conhecimento e que depois, naturalmente, acaba criando soluções e benefícios que vão se expandindo para outras classes. Mas não vejo isso acontecendo ainda no placemaking. Pelo contrário, vejo muito mais comunidades de média e baixa renda tentando retomar o espaço público, justamente pela falta de alternativas às vezes de outros espaços. Enquanto a elite é sócia de um clube à beira do lago, quem não é sócio precisa de um espaço público para usufruir do lago, para ter exatamente a mesma experiência de tomar um banho de sol e brincar com o filho no parquinho.

Quem está fazendo hoje placemaking como boa referência?

RB: O terreno está muito fértil. Não é um governo, não é uma pessoa, não é um grupo, uma empresa, uma prefeitura, fundação ou agentes isolados que irão promover a transformação. É este conjunto, unido, plantando as sementes e as vendo florescer.

A UPSA é uma incubadora e desenvolvedora de talentos que há quase dez anos foca na construção de excelentes espaços públicos. Temos como um de nossos valores ´Cidades como fim, pessoas como princípio´. Partimos da escala do ser humano que vai viver nesta cidade. Estamos muito animados em trabalhar no movimento mundial agindo localmente. Quem tem trabalhado conosco neste terreno fértil plantando boas sementes e colhendo ótimo frutos é o Movimento e Ocupe Seu Bairro – MOB. Juntos desenvolvemos um trabalho de discussão sobre a Praça Coronel Floriano, em Planaltina, desconstruindo a visão histórica do arquiteto como especialista do projeto, onde se desenhava um projeto e o trazia pronto sem antes ouvir a comunidade para saber exatamente a relação que ela tem com aquele espaço. Este nosso trabalho na praça tem como objetivo pulverizar o processo de decisão a respeito do que deveria ser transformado. A oficina gerou então algumas recomendações da comunidade. 

“O ciclo da suburbanização teve dois elementos muito fortes, uma com influência na outra: a visão do movimento modernista e da revolução tecnológica do advento do carro. Portanto as discussões nas redes sociais sobre o placemaking são globais nas redes sociais”

 O Brasília Ocupada tem como proposta agregar e compartilhar o movimento, ser uma força promotora centrada na comunicação. Como você o vê?

RB: Se hoje até um presidente `twita` a ideia de se lançar uma bomba nuclear, o movimento também não pode abrir mão da utilização correta das Redes Sociais. O movimento do placemaking tem características que casam muito bem com as Redes Sociais. Por exemplo, unir os difusos agentes de ocupação e promover o debate na sociedade para que não se chegue com um projeto de receita pronta elaborado por um especialista. Se não existe um líder e sim diversos agentes neste movimento mundial, é importante que se agreguem em espaços digitais.

Algumas pessoas estão tentando mapear, botar no papel, mas é um movimento mutante, diário. O movimento placemaking tem uma característica muito humana e que por isso encontra-se como um agregador, não importando as diferenças culturais. Então, as Redes Sociais tem a oportunidade de serem centralizadoras de todo este processo. A tentativa, tanto do Brasília Ocupada quanto do Placemaking World, é muito importante para o movimento e espero que seja bem sucedida

Em nível mundial, a PPS fundou a Lidership Council – Conselho de Lideranças Global de Placemaking e estavam com dificuldade de encontrar uma ferramenta para aglutinar estas pessoas, resumiu-se a grupos de e-mail. São necessárias outras ferramentas de participação e engajamento popular por aplicativos móveis, pois mantêm toda uma interação com a cidade. A transformação do placemaking está acontecendo juntamente com a transformação das Redes Sociais

Você concorda que o grande impulsionamento do placemaking se dará quando as marcas começarem a perceber que podem incluí-lo em suas estratégias de comunicação, conectar as pessoas para promover o espírito de comunidade participativa?

RB: Eu acho que a sociedade de hoje trabalha em nichos isolados. Cada setor participa fechado em pessoas que pensam como eles: acadêmicos com acadêmicos; empresas com empresas; ongs com ongs. As discussões são muito fragmentadas, existindo muito pouco diálogo entre estes diferentes mundos, entre pessoas que pensam diferente. Mas é nas discussões do diferente que vão sair as melhores ideias.

A Southwest Airlines fez um programa com a PPS para a consultoria de projeto em torno do placemaking. Este envolvimento não existe no Brasil, hoje ainda estão resumidas às plaquinhas do tipo ´marca x adota essa praça ou essa lixeira´. O gestor público ainda hoje tem uma aversão a este tipo de parceria público privado, uma barreira que precisa urgentemente ser transposta. Não é só a empresa que não está falando com um agente de ocupação/artista de rua. Ninguém está falando com ninguém. O artista tem um grande preconceito de falar com a empresa. O acadêmico não quer falar com o governo. É só com interação que muita coisa vai acontecer.

Este é ainda um cenário mundial pois na conferência Future of Places, que reúne milhares de pessoas,  uma pesquisa aponta que a demografia dos participantes tem baixíssima participação de representantes do setor produtivo. Isto porque a ONU se considera um governo transnacional e só convida pessoas de governos e ligadas às ONGs e do terceiro setor. Obviamente que prejudica o nível do debate. É necessário se agregar todos os agentes de ocupação de espaços públicos para que então o debate seja efetivamente rico e produtivo. Como hoje é impensável uma empresa não estar nas redes sociais, será amanhã impensável uma empresa não se incluir na questão global urbana.