O vazio, de cenário a palco: ocupações das áreas livres públicas em Brasília.

O vazio, de cenário a palco: ocupações das áreas livres públicas em Brasília.

Por Bruno Botafogo em 29 de Abril de 2017

Ocupar uma cidade pode estar vinculado a vir habitá-la. Desde a construção do Catetinho, primeira residência oficial, no final de 1956, até hoje, milhões de pessoas vêm preenchendo Brasília (aqui entendida como todo o Distrito Federal), tornando-a a terceira cidade mais populosa do Brasil.

Brasília vem abrigando (não necessariamente com a equidade desejável, não necessariamente dentro de uma estratégia adequada de planejamento territorial) pessoas que ocupam espaços. Em casas, apartamentos, invasões, barracos, chácaras; em escritórios, órgãos públicos, lojas, casas de família, empresas, escolas, hospitais; em ônibus, metrôs, automóveis, cada cidadão, ao se ocupar das diversas atividades componentes da sua vida privada, ocupa a cidade de forma dinâmica. Passando e permanecendo.

Como tem muito a oferecer em vários aspectos (ter seu IDHM/Índice de Desenvolvimento Humano Municipal como um dos mais altos do país é apenas um exemplo), a cidade continua atraindo grande número de migrantes, que, a despeito das gerações de nascidos aqui, seguem sendo maioria na composição populacional. E assim, tem sido uma das cidades que mais cresce no país.

Por seu desenho peculiar e suas políticas de expansão, a cidade, ao ocupar cada vez mais seu território à medida em que crescia, foi deixando um elemento contraditoriamente evidente: o vazio. Esse vazio que não é necessariamente ruim ou bom, mas que traz consequências.

Em Brasília está presente o vazio desagregador, que afasta, do núcleo tombado, localidades consideradas menos nobres; o vazio que representa distâncias que têm impacto na vida  cotidiana, desestimulam o pedestre e encarecem o transporte público; o vazio que se reflete numa quantidade exacerbada de áreas livres públicas de alto custo de manutenção e nenhuma estrutura para permanência de pessoas; o vazio que, juntamente com a setorização, é cúmplice da má distribuição dos ônus e bônus do viver urbano.

 

Porém, numa outra perspectiva, o mesmo vazio representa essa generosidade de espaços públicos que poucas cidades no mundo oferecem e que contribui para compor a identidade de Brasília; o vazio que permite descortinar o horizonte e trazer o céu para perto; o vazio que amortiza impactos e possibilita a presença do verde (infelizmente não viabilizado em vários bairros), o vazio contemplativo.

Esse vazio sempre foi mais cenário que palco. Há até pouco tempo.

De uma cidade que, em sua concepção original privatizou a orla do lago e criou um “Setor de Diversões”, a capital migrou para um campo de experimentações ao ar livre – e há nela muito ar livre para dar margem a experimentações. Cidadãos que por tanto tempo ocuparam-se apenas de suas atividades privadas agora ocupam-se em dar destino ao vazio. Doam seu tempo e seu entusiasmo para organizar mutirões, eventos, intervenções mais ou menos duradouras: atividades que desmistificam espaços, agregam pessoas, permitem trocas, vivências, experimentações e, principalmente, o exercício da tolerância e o aprendizado do respeito pelo semelhante e pela coisa pública. Outros cidadãos encampam essas oportunidades de ocupar o que até então apenas contemplavam, de estar onde nem sequer imaginavam que poderiam, em seu tempo livre.

Algumas dessas iniciativas dão às áreas livres públicas destino temporário. Exigem preparação, divulgação, monitoramento, e devem, depois, restituir o lugar ao seu estado original. Outras deixam marcas mais duradouras, que permitem transformar o vazio em lugar de apropriação cotidiana, para a qual haverá menos esforço, programação e preparo, no qual o encontro se fará mais fácil.

Somada a isso vem a ação governamental, que de forma lenta percebe a premência da estruturação da cidade para o caminhar e o pedalar – condições de deslocamento que favorecem a sustentabilidade urbana, a utilização dos espaços públicos e a interação entre as pessoas – e pouco a pouco começa a viabilizá-la, embora ainda precise aprender a colocar as necessidades do ser humano bem à frente das do automóvel.

Paulatinamente desperta para a importância de se resgatar áreas privatizadas para uso público, de se constituir lugares de permanência, nas diferentes escalas (do parquinho do bairro à praça central), que sejam interessantes, agradáveis, bem dimensionados, equipados e mantidos. Lugares que se prestarão a ocupações tanto cotidianas quanto eventuais, apoiando ainda mais as iniciativas populares.

Ao se dar ao trabalho de ressignificar suas áreas livres públicas, de transformar, mesmo que temporariamente, o espaço que afasta no que pode agregar, Brasília está começando a trazer, dentro das limitações da sua estrutura primeira, a oportunidade do compartilhamento, da colaboração, da convivência. Nesse trajeto – que deve ser percorrido, não evitado – conflitos são esperados, e devem ser enfrentados para o amadurecimento da coletividade.

Nesta cidade generosa de vazios, o cenário vem tornando-se, também, palco. Ainda bem.

 

Dra. Gabriela Tenorio: Arquiteta (1993) e mestre (2000) pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo/FAU da Universidade de Brasília/UnB. Doutora (2012), pela FAU/UnB, sob a orientação do Prof. Dr. Frederico de Holanda, tendo sua tese recebido menção honrosa no Prêmio da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo/ANPARQ 2012. Especializou-se em estudo e levantamento de espaços públicos por meio do Project for Public Spaces (Nova York) e Gehl Architects (Copenhague).É professora adjunta da Universidade de Brasília, em regime de dedicação exclusiva, lotada no Departamento de Projeto, Expressão e Representação. Possui atuação em ensino de graduação (Projeto de Urbanismo, Avaliação de Pós-ocupação de Espaços Públicos, Trabalho Final de Graduação, Ensaio Teórico); ensino de pós-graduação stricto sensu (orientação de mestrado e disciplina da área de Projeto e Planejamento Urbano); curso de pós graduação lato sensu (coordenação de curso de especialização a distância) e administração acadêmica (coordenação de extensão e graduação). Possui prêmios em concursos nacionais de urbanismo. Seus principais interesses são: uso, apropriação e desenho de espaços públicos, centralidades urbanas e intervenções em áreas consolidadas. É criadora e coordenadora do CEEP/Centro de Estudos de Espaços Públicos, da FAU/UnB.